O que você está vendo - MAPA DO BLOG

Esta página mostra meus trabalhos já publicados e alguns inéditos - contos, poesias, crônicas e imagens. Também estão aqui as versões originais das letras que fiz para a banda Dose Letal. Há trabalhos do século passado e atuais.
Olhando a sua direita, estão as obras dispostas por categoria e você pode acessá-las abaixo no "Arquivo do BLog".
Também posto aqui alguns trabalhos de divulgação de amigos ou pessoas relevantes - ver "Textos Indicados", à sua direita.
Depois está a lista de obras que participaram de concursos. Estas obras já foram citadas na lista "Obras por categoria". Apesar de algumas já merecerem reescrita, foram mantidos os originais.
No fim está uma lista de links de sites que considero que valem ser visitados.

terça-feira, 24 de março de 2015

Papa Francisco e o atropelamento

Semana passada um padre sobre efeito de álcool atropelou e matou uma pessoa. Eu estava na barca Rio-Niterói e ouvi um rapaz, estagiário de jornalismo de acordo com o que disse, comentar que gostaria de entrevistar o Papa Francisco sobre isso. Fiquei pensando o que eu responderia se fosse o papa:
- Papa Francisco, o senhor ouviu sobre o caso do padre bêbado que matou um homem por atropelamento?
- Eu vi os jornais.
- E o que o senhor acha?
- Sinceramente, meu filho, o que quer que eu responda? Quer que eu dê uma resposta vaga, como "Ele é um padre". Aí, você levaria uns dezessete dias pensando eu quiz dizer que como papa ele pode tudo, ou se eu quiz dizer qualquer coisa metafórica tão confusa quanto a definição do Tao. Você quer que eu diga que como padre ele deve ser perdoado? Ou quer que eu faça um discurso acalorado sobre o erro dele, condenando ao mármore do inferno? Ou que diga aos outros para não beberem mais,  ou que reze para que a importação de bebidas caia, ou que reze para a faculdade de jornalismo tenha mais um ano em sua grade para gente como você ter mais chance de melhorar e não mais fazer essas perguntas idiotas? Uma coisa é certa: do meu vinho eu não largo.


quarta-feira, 18 de março de 2015

A RELAÇÃO ENTRE AS COISAS

Conversando com um senhor britânico acerca do Estado Islâmico ele acabou se referindo ao problema (como ele considerou) de se alterarem hábitos locais devido a entrada de imigrantes em outros países. Quando falava ele tinha um discurso saudosista marcado pela necessidade de manutenção e importância das tradições e como hoje em dia tudo isso ia se perdendo. Alegava que os imigrantes ao mudarem para outro país deveriam adotar os hábitos locais, ou pelo menos não alterá-los.
Outro dia perguntei-lhe sobre os negócios do seu pai, e ele me falou que, como seu pai morara muito tempo na Índia, conhecia bem os costumes indianos. Com isso montou uma pequena firma de prestação de serviços de limpeza e estabeleceu uma sistemática de contratação baseada nas castas indianas: contratou um supervisor de uma casta privilegiada e todos os outros trabalhadores de castas inferiores, garantindo assim a autoridade do supervisor sobre os demais funcionários.
Não sei se esse exemplo caberia melhor em uma aula de administração (gestão de pessoas) ou de sociologia.
De qualquer forma o curry domina a Inglaterra.

domingo, 8 de março de 2015

Lembro que há certo tempo havia no futebol, de um lado, a dupla Túlio e Bebeto (good guys) e do outro Romário e Edmundo (bad boys). Edmundo atropelou e matou um homem, e sumiu da mídia. Lembro que nos quadrinhos o Wolverine começou como inimigo do Hulk e o Justiceiro como inimigo do Homem-Aranha. Os dois eram saguinários, mas deram audiência e depois viraram "heróis" pasteurizados. 
PERGUNTO: Até onde o grande público se identifica e até onde aceita a violência ?

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Pornhub - latinas, negras e os vizinhos


Li uma reportagem sobre alguns dos termos mais procurados no pornhub serem referentes a "latinas" e "negras" e a preocupação disso não refletir a escolha matrimonial da maioria de uma certa classe média, o que poderia, talvez, gerar infelicidade e frustração sexual. A matéria diz que as escolhas não refletiriam o verdadeiro desejo, e sim pressões sócio-culturais.
Pergunto: será que na verdade a tal classe média não está colocando "latinas e negras" no lugar onde consideram devido dentro da ótica deles? Em um submundo visitado às escondidas na calada da web, sem ter de prestar contas aos vizinhos? As tais pressões sócio-culturais escondem preferências sexuais ou as geram?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Músicas com uma mensagem que vale a pena deixar para sua prole caso você parta antes deles crescerem:

TANTO FAZ - VINNY
PAPO-CABEÇA - LULU SANTOS
NÃO ME ACABO - BARAO VERMELHO
CUIDADO - BARAO VERMELHO
PENSE E DANCE - BARÃO VERMELHO

domingo, 8 de fevereiro de 2015

TECELÃO SE ELEVANDO

AMOR TECE A DOR

AMORTECE A DOR

AMORTECEDOR

A MORTE CEDE A DOR

AMOR TE CEDE A DOR



ELEVADOR

ELE VÁ À DOR

ELEVA A DOR

E LEVA A DOR

Recomendo:
Obra ficcional "Pelo Machado Governo". Textos publicados semanalmente no blog:

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Link para publicação da obra de ficção "Pelo Machado Governo"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Não se escapa , ou de dentro , ou da alça .

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Morituri Salutant

segunda-feira, 10 de março de 2008

Não Mais (Blues)

UMA PRECE SEM FÉ
UM QUERER DESEJO
UM AMARGO NA BOCA
QUANDO PENSO EM SEU BEIJO
É TUDO QUE RESTA
É O QUE EU VEJO EM VOCÊ
ENTÃO ALGO EM MIM APAGA
SEM HORA OU PORQUÊ

TE TER EM MEUS BRAÇOS
EU NÃO MAIS ANSEIO
DE TODAS SUAS DÚVIDAS
TIREI MINHAS CERTEZAS
CADA MÚSICA QUE EU OUÇO
É A CANÇÃO MAIS TRISTE
E EU NÃO SEI RESPONDER
O QUE DE NÓS AINDA EXISTE;
SE EXISTE ...

MINHA VONTADE FRACA
DE VOCÊ A MEU LADO
NÃO CONSIGO TOCAR
SEU ROSTO OU SUA PELE
OUVIR SUA VOZ
SUA VOZ ME FERE

quinta-feira, 6 de março de 2008

Outra noite na Taberna - trecho do livro ilustrado "Fábulas da Noite"

Lua cheia. Sua claridade cintilava nas folhas e um rigoroso inverno castigava a região. Zoll, sempre em silêncio, observava a doçura infantil de Ariel, que brindava com cânticos as novas amizades conquistadas. Então , o jovem bardo sorve seu vinho para espantar o frio e se vira para Lucian:

- Uma trova!
- Você primeiro, bardo
- Que seja!

O fogo chegou, o choro secou
A fumaça se foi, só cinza ficou
o vento cessou, o barco parou
sim, ele era forte,
mas a onda o virou


- Sua vez!
- Está bem. Chama-se “Estações”

A inocência morre à primavera
no calor o fruto dá seu fruto
que se junta às folhas soltas no chão
para fazer do inverno seu túmulo


- Sois um bardo romântico, Lucian
- Obrigado
- Ouça! E Ariel vir-se para moça que passa a seu lado , olhando-a lascivamente:

Canto de pássaros, chocalho de serpente
É a voz de mulher com dois sons diferentes

A moça vira-se enraivecida e parte, deixando os risos para trás. Depois se viram para o terceiro à mesa, quieto até então.

- Conte-nos algo, caro Zoll
- Sim sacerdote, se não canta, conte.

Zoll ajeita-se na cadeira em silêncio. Uma brisa leve entra pela porta e tremula as chamas das velas que dançam uma melodia triste.

- Uma história... de uma amiga...

...mas agora ela senta em silêncio
a boca murmura uma prece infantil
lágrimas caem, joelhos doendo
pede por quem um dia partiu

Décadas a passar
sóis se pôr, levantar
e ele nunca retornou
e nela a solidão
– mais que a vergonha –
aflorou

Sentada em sua cama
observa
sua desonra e humilhação
refletidas na lâmina
que espelha seu rosto
e se agita em sua mão

Não pensa em correr
- para onde fugir
do que se é ou se fez
Se o inevitável se faz vir
então seja agora!
no frio metal
repousa a resposta

Pois, uma órfã de Deus
por quem o Sol não brilha
tem menos a perder
do que a própria vida.

Então Zoll levanta-se em silêncio e não o percebem partir
E na taberna mais nenhum riso foi ouvido na noite.

Correnteza (Country)

CORRE O RIO
CORRE O RIO E NÃO ME TRAZ
CORRE O RIO
CORRE O RIO E NÃO ME TRAZ
UM LUGAR PRA ESTAR SÓ
E ENCONTRAR MINHA PAZ
UM LUGAR PRA PENSAR
SEM FANTASMAS POR TRÁS
CORRE O RIO
CORRE O RIO E NÃO ME TRAZ
CORRE O RIO
CORRE O RIO E NÃO ME TRAZ
UM MEIO DE ESQUECER
OS ERROS QUE COMETI
UM MEIO DE ESQUECER
TODO O MAL QUE HÁ EM MIM

Vendaval (Blues)

MINHA VIDA AGORA RODA DE BAR EM BAR
E NUM MAR DE VINHO EU VOU ME AFOGAR
SÓ EU SEI
O PORQUÊ
E PRUM SUBMUNDO QUALQUER ME MUDAR
LADRÕES, MENDIGOS, PUTAS, CABARÉS AO LUAR
EU TB
SOU ASSIM
FOI O QUE SOBROU DE MIM DEPOIS DO VENDAVAL
VOCÊ SOPROU MAIS FORTE DO QUE DEU PRA AGUENTAR

VISTO UM DIA, CALÇO O OUTRO, TODA MANHÃ
PASSO AS HORAS, DISPO OS MESES NO MEU VARAL
NADA VAI
SE PRENDER
SEM DIGNIDADE, UM LUGAR, UM PAÍS
SEM UM CAIS DO PORTO, CAMA QUENTE, RAIZ
COMO UM CÃO
A CORRER
UIVANDO ALTO E SÓ DEPOIS DO VENDAVAL
VOCÊ SOPROU MUITO MAIS FORTE DO QUE DEU PRA AGUENTAR

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Gaiola (Blues)

CANTAR
NÃO CONSIGO
SORRIR
NÃO CONSIGO
SENTIR
EU MAL POSSO
VIVER
SONHAR
EU NÃO QUERO
DORMIR
NÃO CONSIGO
SENTIR
MUITO MAIS
DE VOCÊ
NÃO POSSO MAIS VIVER ASSIM
NEM ME ESCONDER NA ESCURIDÃO
NÃO POSSO MAIS ESQUECER DE MIM
MINHA VIDA A CANTAR
SÓ BEM LONGE DE TI
SEM TUA MÃO A FREAR
O QUE ESTÁ POR VIR
MINHA MENTE RECLAMA
MAS SUA VOZ ME PROFANA
ENTÃO ME ARRASTA PRA CAMA...

Prodigal Son (Folk)

PLEASE, MUM,
GET ME OUT OF HERE,
TAKE ME BACK HOME

PLEASE, MUM,
GET ME OUT OF HERE,
BRING ME BACK HOME

I JUST CAN’T STAND
I JUST CAN’T STAND
`CAUSE THIS PLACE
DOES NOT BELONG TO ME
NOR ANYONE
NOR ANYTHING I SEE
SOMEONE GET ME OUT OF HERE
FATHER, PLEASE,
TAKE ME BACK HOME
SOMEONE GET ME OUT OF HERE
MUM, PLEASE,
TAKE ME BACK HOME.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Canção do Carrasco

Peço meu carrasco
na hora do cadafalso
espere mais um pouco
vi minha filha ali chegar ;
Minha menina veio me ver
com o rosto abaixado
de vergonha e me recusa
em seu singelo olhar.


Não, não tenho dinheiro,
não, não tenho ouro,
se eu tivesse então
aqui estaria outro;
Não conheço quem manda
e sem família importante
se não a essa hora
estaria bem distante.

Mãe.... , vc veio ?
reze por minh`alma
qu`ela vá com calma
e não deixe mágoa;
Pai ? perdoe-me por tudo
que por nada te perdôo
o que esperou de mim
tanto aqui me trouxe .

Agora sinto a corda
roçar o meu pescoço
vai apertar forte
já perco o raro ar;
Não tenho sobrenome
a mim ninguém conhece
se acaba meu legado
meu nome aqui perece.

(Inspirado em "Gallows Pole" de Page & Plant)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Amaral Peixoto, 13h47min. (Texto do curta-metragem)

Avenida Amaral Peixoto, 13h47min, Niterói, RJ. Um grito alto e estridente soa no meio da tarde quente e abafada. O formigueiro do centro da cidade pára e prende a respiração ao ver uma mulher que cai de joelhos diante de um homem alto e forte. Ele imóvel, punhos fechados frente a pequena figura que se curva em dor sobre a enorme e pontuda barriga que carrega.

João acordara cedo como todos os dias. Arrumou-se, arrancou alguns pêlos brancos que sobressaiam na barba. Sem aviso eles apareciam, mas não conseguiam se esconder na pele negra e, apesar de arrancados, teimavam sempre em voltar. Olhou o quarto, pousou a vista no pequeno, já não tão pequeno, encolhido no berço quebrado e velho que ganhara de um amigo cujo filho crescera. Viu a esposa arrumando a cama quebrada e velha que ganhara de um primo já falecido. Parou, percebeu os móveis da casa e que todos tinham história desconhecida, uma vida pregressa a qual ele invadira em algum momento, nenhum nascera com ele, nenhum saira da manjedoura da loja e dera seus primeiros passos nesta casa, e hoje sentia neles o mesmo desgaste que fazia doer suas próprias costas. Caridade não necessitada é gentileza, quando necessitada é veneno para o orgulho próprio. Bebeu o café que a esposa preparava todos os dias, beijou-a na testa, e pela primeira vez reparou nas rugas que se formavam em seu rosto. Olhou os móveis que pareciam estranhos não convidados e a si. Madeira, ferro, alumínio, ossos, músculos. De repente uma pressão no peito vem, ele fica aturdido por um instante, mas percebe que é por causa de sua nega que lhe traz o pão e – sua presença o relembra dos músculos do coração. Uma princesa. Dentro de seu pequeno vocabulário não havia palavra mais completa para o que sentia por ela. Ela era a mais linda. Era o que o acordava cedo todos os dias. Sua imagem o acompanhava enquanto colocava o tabuleiro nas costas e descia morro abaixo para o calor do asfalto. Como todos os dias.

Como se alguém apertasse o pause, todos permanecem inertes diante da cena. Jesuíno, punhos cerrados, com a cabeça inclinada na direção da pequena mulher que ajoelhada aperta desesperada o imenso ventre. Uns se afastam rápido, uns não conseguem andar, uns não sabem o que fazer. Outros não percebem o sentimento nefasto que começa a crescer dentro deles.
O mundo parecia suspenso no ar.


Raimundo acordara de uma noite cheia de sonhos. Hoje conseguiria um trabalho. Sentia profundamente isso. Preparara uma lista com os restaurantes da cidade e com as obras da prefeitura – pá ou bandeja, pouco importa, o que importa é que seria uma “vida honesta”, como prometera a sua mãe antes de vir para o Rio de Janeiro. Sua velha mãe, a pele marrom e trincada como o chão batido do sertão, cabelos grisalhos como as nuvens do litoral, cuja saudade lhe apertava a garganta, ele sonhava para ela uma velhice mais digna, fruto do que ele ganharia na dita “cidade grande”. Hei de honrar você minha mãe, dizia para si, e forçava ao escuro da memória as lembranças do tempo com o pai. As marcas que a mãe tinha no corpo, nos de seus irmãos, seu próprio dedo mindinho retorcido. Não chorou quando os guardas vieram leva-lo, e apontou o barreiro em que o pai escondia bem como os bois que roubara. Quando os guardas o algemaram e o jogaram atrás no carro, Raimundo voltou-se para dentro de casa, reuniu os irmãos pequenos, sentou-se na cabeceira da mesa e mandou que a mãe servisse o almoço.

Mais e mais pessoas param para ver o ocorrido. Maria, ajoelhada, continua a apertar a pontuda barriga como se segurasse o filho que queria rasgar o caminho para fora.
Impassível, Jesuíno continua.


José pegou o Livro e saiu apressado, tentando digerir as palavras do pastor sobre como deveria se resignar com a vida, com os outros e com seu emprego. Os patrões são homens ocupados José, de muitas responsabilidades e que sofrem muitas pressões, e você deve aprender a perdoar – A lição do Cordeiro. E José obedecia. Sempre. Obedecera durante toda uma vida sem sentir, até mesmo na tenebrosa hora em que teve de se separar dela. Não é boa moça, disseram os irmãos. Não é uma de nós. Mas quando fora falar com ela tremia sem saber a causa, e quando lhe fora pedido uma resposta, um porquê, “Você não me ama?” ele não o sabia dizer, os lábios se retorceram e antes que tentasse qualquer coisa ela se levantou e saiu porta afora. Ficou sentado, a olhar o Livro procurando algo que aliviasse sua dor e amansasse sua raiva.
José pegou o Livro e saiu apressado, tentando digerir as palavras do pastor, sobre como deveria se resignar com a vida, com os outros e consigo mesmo. Andava apressado, cozinhando a raiva em banho-maria.


Uma pequena multidão já se formara. Transeuntes param e começam a rodear os dois. Algumas vozes se levantam indignadas, enfrentando o medo que causa a figura do enorme mulato.
Jesuíno não se move.


Carlos era um bom policial. Há anos trabalhando internamente na delegacia, sempre evitou qualquer tipo de confusão, qualquer coisa que lançasse sombras sobre sua conduta, assim como qualquer dívida ou favor que pudesse ser usado para o forçar a agir fora dos seus princípios. Seu pedido de transferência para o interior do município sairia em breve, e ele ansiava por uma vida tranqüila só com ladrões de galinha e briga de vizinhos. Em seus planos de aposentaria, daqui a uns anos estaria descansando com nome e consciência limpos.

Élcio era o que se podia chamar de um policial linha-dura. Ou é ou deixa de é, e Se eu disser pula, tu pula eram seus lemas favoritos e se tornaram notórios em todas as delegacias. Seus boletins de ocorrência eram sempre obscuros, com dados conflitantes, perda de provas e muitas mortes com justificativas duvidosas.

O céu estava claro na Avenida Amaral Peixoto às 13h47min em Niterói, Rio de Janeiro.

De repente o ar incendeia e o mundo irrompe em tumulto e fúria.
Um alguém da multidão corre para a lateral esquerda do gigante mulato. Jesuíno se vira e o homem tomba antes mesmo de erguer a mão. Outro vem pela sua frente, mas um chute o arremessa de volta na mesma direção de que veio. As mãos do mulato dançam sobre a multidão, dois socos rápidos sobre um atacante na direita, uma cotovelada na esquerda e um rabo-de-arraia levam vários ao chão.
Jesuíno não pára de se mover.

“Qual o seu nome minha filha?”; “Maria”, ela responde. José olha para a mulher no chão, arrastada para um canto da calçada por três mendigas velhas a acudi-la: os cabelos suados de Maria grudados na testa, o ventre sem mais tamanho, o rosto contorcido de dor. As mãos apertam a barriga como se impedissem o filho de sair a qualquer momento sobre o papelão sujo em que estava.
Pensamentos e versículos reverberam em sua mente.

João avança sobre Jesuíno, mas, mal se aproxima, é lançado de volta, caindo sobre seu próprio tabuleiro e suas peças se espalham pelo chão. Raimundo tenta agarrar o capoeirista, mas este se vira e pega o braço do nordestino e o que segue é o som de ossos partindo. Poucos ainda estão em pé e Jesuíno não pára de se mover.

O esquálido José vê Maria no chão e o gigante Jesuíno a sua frente a devastar a tudo e a todos. Súbito, seu sapato chuta algo, e ele percebe a pedra que servia de calço para o tabuleiro de João. Sem perceber o porquê, abaixa-se e a segura com força.

Um estrondo ecoa na Avenida Amaral Peixoto. A multidão se espalha como ondas quando uma pedra cai no lago.

Carlos paralisado, com a arma na mão, olha o corpo de João que cai lentamente, com a bala alojada no crânio. A arma enferrujada disparara por acidente e acertara o camelô, que chutava o corpo caído do gigante mulato depois que este tombara com uma pedrada na parte de trás da cabeça. Élcio algema o crente e o joga junto com o nordestino de braço quebrado na traseira do camburão. Raimundo grita de dor e de protesto, mas é silenciado pela mão forte de Élcio. Carlos olha o corpo do camelô, então Élcio, com um sorriso amigável, se aproxima e diz para ele não se preocupar que o boletim de ocorrência assegurará o correto procedimento do “parceiro”.


No camburão José murmura versículos e do seu lado um sertanejo desespera ao pensar em uma velha senhora no sertão de Pernambuco que, naquele instante, sufoca em angústia. Longe dali, no Morro do Estado, uma dona de casa sente um aperto no peito e abraça seus filhos e começa a chorar sem saber por quê.



Maria, na ambulância olha Jesuíno sendo colocado no rabecão dentro de um saco preto. Seu espírito volta até a manhã daquele mesmo dia, quando marcara com ele para buscá-la na Avenida Amaral Peixoto às 14:00h. Ambos chegaram mais cedo. Ela o avistava de longe, sua figura imponente, ombros largos, corpo de atleta. E como era bonito! Algo que ele sabia bem, assim como muitas outras mulheres. Com quantas ela discutira, e quantas bateram em sua porta reclamando por ele. No começo ele pedia perdão, ela cedia, e tudo ficava bem. Mas agora nem a isso ele se dava mais ao trabalho. Todos sabiam, sentia a sombra dos vizinhos a segui-la, rindo ou lamentando por ela.
Mas ela carregava sua vingança no ventre.
Então ele se aproximou dizendo que tudo terminara, para ela pegar suas coisas e partir de sua vida. Ela reclamou, disse que ele enlouquecera, mas quando ele dissera que seu irmão confessara tudo, ela sabia que não havia mais volta. E sem aviso o mundo começou a girar, sua visão ficou turva, e, como se o bebê respondesse ao que acontecia, uma dor lancinante a acometeu, tão forte que a levou ao chão gritando. Então tudo virou treva. Quando se deu conta, algumas mulheres a levantavam do chão e a puxavam para um canto da calçada. “Qual o seu nome minha filha?”; “Maria”; “Esse cara não é homem, homem não faz o que ele fez!”; “Mas...”; “Quieta, minha filha, já vai passar”, “Mas...”; Maria, meio tonta, percebe o círculo de pessoas que começa a se fechar ao redor de Jesuíno.
Uma surra, sim, ele merecia uma surra. Mas então aquele homenzinho estranho, com a Bíblia na mão e que não tirava os olhos dela pegou uma pedra no chão e atirou em Jesuíno. Então veio o estrondo, a correria e o corpo de Jesuíno estirado no chão.

No ventre de Maria uma criança não entende a tristeza sem fim que lhe chega por meio do cordão umbilical, nem o som estranho que faz a sirene de ambulância, nem o futuro incerto e solitário que a espera.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Bela (Blues)

Ventos
vem e vão
e varrem
minha cabeça


De tudo que há de Belo
Que minha mente não esqueça
Que sua imagem brilha
Através da neblina
E ilumina o caminho
Por toda minha vida

Frágil
E quebradiça
E o medo
Que anoiteça

Quando o pavor chega
Desse mundo tão enorme
Sem família ou amigos
E entregue à própria sorte
Pois tudo que eu tinha
Perdi quando você se foi

Sem marcas
De ilusão,
Só tenho
Uma certeza

No vinho caiu água
Já não dá pra separar
Se a chuva pro céu não volta
Se o rio não corre ao contrário
Um anjo te pegou nas mãos e
Nunca mais ter você a meu lado

Nunca mais...

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Aterramento

Cai por terra
tudo que aprendi
que li
que estudei,

Ao te ver parada tabuleiro de bala cara suja roupa rasgada vendendo doce sorriso amargo olhos vazios barriga vazia


Joga-se ao vento tudo
que se prometeu
se escreveu
se discursou
palestrou

Ao te ver solto na esquina cheirando cola olhos vítreos dentes de bicho eletricidade nas artérias pulsando postura de Deus com a morte em gatilho dançando em uma de suas mãos

Cai no esquecimento
tudo o que se planejou
se projetou
não se realizou

Ao te ver leve pluma na rua pedindo esmola malabares com bola boca aberta de fome mãos suplicantes batendo no vidro do carro que sobe a parede de vidro

Cai por terra tudo que fiz
Que senti
Que amei,
Ao te ver encolhido num canto sujo
Feio,
frio,
imundo
Imóvel, rijo, parado,
Duro e mudo.


Afunda na lama -
TUDO;
ao me olhar no espelho e saber que durmo.